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Archive for maio 2009

Esta pergunta aparece com frequência nas discussões, entre leigos ou não, para explicar o suposto fracasso do linux no mercado doméstico. Durante algum tempo eu aceitei a relevância da pergunta. Nem entrando na análise das respostas! Mas agora ela começa a me soar até estranha. Ela parte da suposição de que falta alguma coisa, e que algo deu errado. Se falta alguma coisa, é muito pouco, ou talvez falte só tempo. Eu creio mesmo que essencialmente não falte mais nada, e a continuar tudo como está basta esperar. Mas por outro ponto de vista, pode-se dizer que falta sim um pouco de consciência ao consumidor sobre seus direitos e seu poder e, com isso, talvez tudo fosse mais fácil. Um exemplo real ocorrido em um forum de linux ilustra bem isso.

Este forum em questão, como a maioria deles, é movimentada por uma comunidade, na base da solidariedade. Mesmo que o site tenha anúncios e receba doações, quem produz o conteúdo são os usuários, normalmente sem receber nada em dinheiro. De vez em quando aparece um novo usuário menos acostumado a este estilo de vida, que deve ter chegado por um mecanismo de busca para resolver um problema específico. Aliás foi assim que eu cheguei naquela página também. O problema é que alguns percebem como as coisas funcionam, e outros não.

Um desses recém chegados, aparentemente de perfil pouco técnico, posta um novo tópico com uma dúvida. Tratava-se da compatibilidade de um determinado dispositivo com uma determinada distribuição. Como não recebe resposta por uma semana, posta em depois um reply irado ao próprio tópico, de 15 linhas, sobre a falta de ajuda. E acaba por diagnosticar a questão do título, que “é por isso que o linux nao deslancha”. São 3 equívocos de uma vez só!

Primeiro, por considerar o forum com o uma espécie de SAC, com obrigação de resolver qualquer pepino dentro do prazo, e não como descrevi antes, um local onde a comunidade interage e colabora em termos de solidaridade. Favor não se exige, apenas se agradece quando, e se, chegar. Segundo, porque como dito no primeiro parágrafo, não falta nada. Ao contrário, por causa inclusive de comunidades como aquela, o linux chegou onde está, o que não é pouco diante das circunstâncias, e continua crescendo. E por fim, o terceiro erro e o mais grave de todos, é nao cobrar a solução de quem realmente cabe a obrigação de resolver o problema, ou seja, o tal fabricante do dispositivo. Ela é a entidade para qual se paga por um produto ou serviço, com todo o suporte para poder utilizá-lo, o que inclui o driver.

Claro que qualquer fabricante pode alegar que o sistema operacional XYZ é um requisito do seu produto, que isto está inclusive escrito na caixa, no manual e no contrato, etc. Mas esta posição pode ser negociada a médio prazo. Os fabricantes fazem o que o consumidor quer, desde que ele deixe isso bem claro, seja reclamando pelo driver ou, de forma até mais contundente, optando se possível pelo produto que já tem o driver. Como se diz, consumidor vota com o bolso. Eventualmente os fornecedores vão começar a visualizar a demanda, vão identificar o diferencial competitivo, e naturalmente os drivers vão aparecer.

E sem citar nomes, neste caso em particular era um grande fabricante mundial de eletrônicos, cujo nome de quatro letras termina com Y … e que certamente teria todos os recursos financeiros para já ter feito o driver. O hardware é bom (eu também tenho o mesmo dispositivo que o tal usuário, alias por isso que caí no tal tópico …) mas a falta de suporte denigre meu conceito da empresa. Trata-se mais especificamente de um modem 3G, comprado direto da operadora, e tanto o fabricante quanto a operadora ignoraram o linux. A operadora poderia por exemplo ter evitado este modelo de modem, se achasse que iria frustar os usuários. Mas como por enquanto os usuários linux não fazem o barulho suficiente, eles não existem para estas empresas, só isso. A propósito, existe solução para o problema de compatibilidade, mas este artigo aqui não é técnico e além do mais não gostei das soluções que encontrei… no meu caso acabei contornando de outra forma.

Mas alguém pode estar pensando, pra haver barulho suficiente pra ser escutado no meio da multidão é preciso um número mínimo de pessoas. Sim, este número ainda é relativamente pequeno, cresce devagar, e é por isso que muita gente não visualiza a solução. É um deadlock: o mercado só oferece coisas para o sistema operacional X (um sistema qualquer de software livre, não necessariamente linux) quando ele tiver muitos usuários, e os usuários só aderem em massa ao sistema X quando o mercado oferecer as tais coisas. Pra desenrolar este nó leva um tempo. Eventualmente o mercado e os usuários percebem que o sistema X é bom para ambos, e que alguém precisa dar o primeiro passo, mesmo que no início tenha que sair da passividade completa de querer tudo ja pronto, tendo em vista os benefícios depois. O mercado paga menos licenças e menos royalties por oferecer produtos e servicos com o sistema X, e o consumidor tem preços finais menores e qualidade mais controlável.

Se os consumidores fossem mais ativos em correr atrás dos fabricantes de hardware e também dos prestadores de serviços, como provedores internet e de software, reclamando do suporte ao sistema operacional que usa, talvez a coisa andasse mais rápido. O ponto mais forte hoje em dia do Windows no quesito facilidade de uso é justamente ter drivers pra tudo: é só sair espetando qualquer coisa no PC que será reconhecido, e às vezes colocar o CD de instalação do driver quando pedido, e se o CD sumir é so baixar o instalador automático do driver pela internet e executar. Mas em geral quem faz os drivers são os fabricantes. A Microsoft sábiamente inclui drivers das coisas mais utilizadas, pra facilitar a vida do usuário, pois tem consciência da importância disso.

Resolvida a questão dos drivers, não haverá diferenca em facilidade de uso entre uma distro mais simples e voltada ao usuário final, como o Ubuntu, e o Windows. Os problemas só não desaparecerão por completo, porque afinal tem usuário que estaca diante do Windows XP, apenas pra citar o Windows mais fácil ate hoje… Como eu defendo há algum tempo, padronização, drivers e jogos comerciais são o caminho para o linux ir entrando no mercado de consumo.

Resumindo, é preciso de vez em quando reconhecer o que já foi feito, visualizar onde é possivel chegar e o que ainda falta por fazer para isto, e de preferência sair da passividade total e fazer, porque a recompensa vale a pena.

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