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Archive for agosto 2009

Meu último post sobre o livro eletrônico teve um lado pessimista, no final. Mas não é bom que quem toma decisões veja os dois lados? E o consumidor a meu ver é essencialmente um tomador de decisões. Agora vamos um pouco mais do outro lado, o lado promissor. A Sony vai utilizar 500 títulos de domínio publico digitalizados pelo Google, por meio de acordo assinado com esta última, oferecendo-os no seu novo e-book. O livro da Amazon (Kindle) permite download de 230 mil. Como disse antes, a briga está esquentando! O e-book da Sony tem preço estimado em torno de 200 dólares.

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A Sony acaba de entrar na briga do livro eletrônico, se juntando à Amazon. O mercado começa a esquentar, e surge a questão de se o livro eletrônico vai deslanchar finalmente e fará parte dos hábitos diários das pessoas. Surge uma outra questão paralela, mais incômoda para leitores e bibliófilos, de se o livro eletrônico vai substituir totalmente o livro em papel. Os arautos da vida totalmente digital parecem ficar felizes com isso. Eu, por minha parte ficaria triste, porque mexe com um dos meus hobbies que é precisamente o de ler e colecionar os livros que gosto… em papel. É importante deixar claro a diferença entre as duas situações. A primeira vejo como positiva. A segunda, quase como o fim do mundo. Mas será que vai acontecer mesmo? Vamos analisar.

Não me considero um reacionário da tecnologia. Muito pelo contrário, sou um “early adopter”. A cada passo da tecnologia da informação nas últimas 3 décadas eu já estava esperando na fila para usar. Mas sempre novas tecnologias trazendo formas de fazer coisas novas, ou modos alternativos de fazer coisas antigas. Nunca para impedir de fazer alguma coisa. Por outro lado acabei aprendendo a questionar até que ponto cada novidade tecnológica servirá para tudo que se promete delas. Muitos desses fiascos seriam previsíveis com uma análise imparcial, que foi ignorada pelo fascínio e euforia gerados por alguma coisa ser novidade.

Então o que está em jogo neste caso? Primeiro, os públicos alvos (vejo vários diferentes), o que eles querem, o quanto querem pagar (em todos os sentidos). Em segundo, as vantagens e desvantagens reais da tecnologia. Não daria pra fazer uma análise completa desses fatores, então vejamos alguns itens destes. Primeiro, quais as vantagens? No atual estágio da tecnologia de e-book, praticamente apenas o fato do livro eletrônico ser compacto. Podemos também fazer buscas pelo texto, ou por vários livros. No início serão buscas por palavras. No futuro podem ser buscas por idéias ou conceitos. Sim, imagine um google mais esperto. E as desvantagens? Atualmente é um equipamento caro, frágil, com a qualidade de leitura inferior, tamanho de página fixo, que precisa de baterias, que precisa transferir os textos, etc. Enfim, extremamente limitado. No futuro estas deficiências poderão ser resolvidas. Entendo que a evolução desta idéia levará fatalmente a um dispositivo ligado na Internet em que os livros sequer serão baixados. Será apenas um browser, sem armazenar nada localmente. Poderá ser usado para ler, ou para comprar os direitos de ler um livro ou assinar uma publicação periódica. É realmente muito prático.

A desvantagem que não será removida de jeito nenhum é justamente o que é a vantagem para muitos, ou seja, a ausência do objeto físico livro. Quais as vantagens e desvantagens deste objeto? Desvantagem principal: ocupa espaço e é pesado. Vantagens: não requer energia, não dá defeito, dura milênios se bem conservado, você possui a pripriedade da mídia, sabe que o texto é estático e não será alterado (que tipo de manipulação da censura será possivel com livros online?), não há questões de compatibilidade de formatos. Se pensar bem, cada uma das duas listas pode ser encarada como vantagens ou desvantagens, dependendo da situação. Aí voltamos à questão dos públicos alvo. Quem quer ler um livro: pode ser um leitor regular de literatura lendo um romance, pode ser um estudante lendo um livro didático, ou lendo o mesmo romance, mas porque foi indicado pela escola, ou pode ser um técnico lendo um guia sobre programação, apenas para citar três. Cada um tem uma expectativa diferente do texto e do livro.

Vamos ao primeiro, o leitor do romance. Ele compra o livro, gosta, sente vontade de mantê-lo. Em parte porque pode querer reler tudo ou trechos do texto depois. Mas não só por isso. Aqui vemos que o ato de ler um romance geralmente não é por necessidade, e sim pelo prazer. Logo, não é puramente racional. Depois, que a leitura vai gerar uma ligação emocional com o leitor. Esta ligação se materializa no texto e no próprio objeto. Creio que é por essas razões que um bibliófilo mantém os livros que gosta por tempo indeterminado. Tanto isto é verdade que os leitores aceitam pagar por edições bem encadernadas, com papel melhor, e mais caras. A idéia é que o texto é tão bom que vale a pena guardá-lo em um formato mais nobre. Se tudo o que importasse fosse o texto, só exisiriam edições baratas em paperback, brochuras e pocket books.

Agora vamos ao estudante e ao técnico. Eles precisam do livro apenas para ter acesso ao texto. É puramente racional, uma necessidade. Também um leitor que quer apenas ler um romance, por prazer, mas sem compromisso, é possivel. Aqui o objetivo é apenas conhecer o texto. São pessoas que atualmente compram um pocket book, por exemplo, e depois descartam. Talvez se gostar de ler um livro online, esta mesma pessoa queira ter o livro em papel, ou não. Enfim, vejo que uma midia precisa necessáriamente eliminar a outra, e não há razão para torcer por uma delas. Eu próprio teria um dispositivo de leitura online, sem com isso abdicar da biblioteca em papel. Quem espera o fim dos livros de papel é porque não gosta de livros, e provavelmente jamais gostará. Quem sente o prazer de ler e possuir livros, sempre pagará a mais por eles, e reservará um espaço em casa para eles. Este é o cenário feliz, de convivência pacífica entre os livros e a tecnologia.

Agora, existe também o cenário de futuro sombrio, também muito possível. Para gostar de alguma coisa é preciso ter contato inicial, e como os livros didáticos serão eletrônicos, a maioria das pessoas nem começa a se interessar pelos de papel… Apenas quem possui pais com bibliotecas convencionais tem esta oportunidade, e por isto o hábito de gostar de livros de papel vai diminuindo a cada geração. Com a predominância dos livros eletrônicos, a economia de escala de livros em papel se perde e eles ficam cada vez mais caros. Livros de papel se tornam artigos de luxo, inviáveis pelo preço e porque os apartamentos de classes média e baixa são cada vez menores. Agora que a TV tem a espessura de um papel, caixas de som não ficam muito atrás, computadores estão incluídos dentro das outras coisas e são na prática invisíveis, os apartamentos são apenas o espaço mínimo para conter os móveis básicos e para guardar as roupas. Todo o conteúdo de texto, video e som vem pela internet. O que hoje é chamado “livro eletrônico” nada mais é do que um browser para este conteúdo. Os textos podem ser alterados a qualquer momento, por qualquer censura de governos ou empresas. Os livros em papel existirão apenas como objetos de luxo para os ricos, que tem espaço de sobra em casa e podem pagar qualquer preço. Esses textos não podem ser alterados, o que se torna um luxo. É quase como uma nova idade média, com todos os livros concentrados nos conventos e nos castelos de nobres. Se ou quando este cenário pode realmente acontecer vai depender do número de bibliófilos…

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