Uma prática de respiração intensa e contínua provocou uma redução média de 45,5% no fluxo sanguíneo global da massa cinzenta do cérebro em um experimento realizado com 30 adultos experientes nesse tipo de técnica. Ao mesmo tempo, os participantes relataram alterações marcantes de percepção e da experiência de si próprios.
Mas o resultado mais interessante talvez esteja justamente no que não aconteceu: quanto maior a redução do fluxo sanguíneo cerebral, não necessariamente mais intensa foi a experiência subjetiva.
O trabalho foi conduzido por pesquisadores ligados ao Central Institute of Mental Health e à Universidade de Heidelberg, na Alemanha, e publicado no periódico Progress in Neuro-Psychopharmacology & Biological Psychiatry. Os resultados ganharam nova atenção após serem apresentados no congresso europeu de neuropsicofarmacologia em Munique.
Não era simplesmente “respirar fundo”
A técnica investigada é conhecida como high-ventilation breathwork, ou prática respiratória de alta ventilação. Ela inclui formas de respiração circular nas quais a pessoa mantém uma respiração contínua, sem a pausa normal entre inspiração e expiração, elevando de maneira deliberada a ventilação pulmonar.
Por isso, o experimento não deve ser confundido com exercícios comuns de respiração lenta usados para relaxamento.
Os próprios autores descrevem essas técnicas como práticas capazes de produzir alterações perceptivas, liberação emocional, mudanças na sensação do próprio corpo e experiências subjetivas semelhantes, em alguns aspectos, às observadas com substâncias psicodélicas.
Participantes ficaram cerca de uma hora realizando a técnica
O estudo reuniu 30 adultos saudáveis e já experientes em práticas de respiração de alta ventilação, com idade média próxima de 45 anos.
Durante o experimento, eles realizaram a técnica enquanto eram submetidos a exames de ressonância magnética. A duração média foi de aproximadamente 62 minutos, embora as sessões tenham variado entre cerca de 36 e 96 minutos.
Os cientistas utilizaram uma técnica chamada arterial spin labeling, capaz de estimar o fluxo sanguíneo cerebral sem a necessidade de injetar um marcador radioativo.
Também foram feitas imagens de ressonância magnética funcional para analisar a comunicação entre regiões cerebrais antes e depois da sessão.
Fluxo sanguíneo caiu 45,5%
O efeito vascular foi bastante pronunciado. O fluxo sanguíneo global da massa cinzenta passou de uma média de 29,81 para 16,24 mililitros por 100 gramas de tecido por minuto.
Isso corresponde a uma redução média de aproximadamente 45,5%. A diferença foi estatisticamente significativa e veio acompanhada de aumento das frequências cardíaca e respiratória.
Os autores classificam o resultado como uma hipoperfusão cerebral global acentuada durante a prática. Hipoperfusão significa simplesmente que uma região está recebendo menos fluxo sanguíneo do que em sua condição de referência.
Por que respirar demais pode reduzir o fluxo cerebral?
Existe uma explicação fisiológica conhecida para esse fenômeno. Uma ventilação excessiva pode reduzir a quantidade de dióxido de carbono no sangue, condição chamada hipocapnia.
O dióxido de carbono participa da regulação do calibre dos vasos sanguíneos cerebrais. Quando seus níveis caem, esses vasos podem se contrair, reduzindo o fluxo de sangue no cérebro.
O próprio artigo aponta esse mecanismo como uma hipótese importante para entender o resultado e cita pesquisas anteriores nas quais a hiperventilação provocou vasoconstrição cerebral e redução da perfusão.
Isso, porém, não significa que o novo experimento tenha demonstrado que a redução do CO₂ explica sozinha todos os efeitos observados.
Participantes relataram estados alterados de consciência
Após a sessão, os voluntários responderam a um questionário padronizado chamado 5D-ASC, utilizado em pesquisas sobre estados alterados de consciência.
Segundo os pesquisadores, os participantes apresentaram experiências intensas envolvendo mudanças de percepção, sensação de unidade e alterações na forma como percebiam a si próprios.
No material apresentado no congresso, os pesquisadores descreveram algumas dessas experiências como semelhantes às relatadas em estudos com doses moderadas ou altas de psicodélicos como LSD ou psilocibina, embora os efeitos visuais tenham sido menos pronunciados.
A comparação é sobre características da experiência subjetiva. Ela não significa que respirar intensamente tenha o mesmo mecanismo farmacológico ou os mesmos efeitos de uma droga psicodélica.
Menos sangue não significou experiência mais intensa
Esse é um dos pontos mais importantes do estudo. Os pesquisadores procuraram saber se as pessoas que apresentavam as maiores quedas de fluxo sanguíneo também relatavam os estados de consciência mais intensos.
Não encontraram essa relação. A redução do fluxo sanguíneo cerebral não apresentou associação significativa com a intensidade das experiências relatadas pelos participantes.
Isso sugere que a hipoperfusão pode fazer parte do cenário fisiológico produzido pela respiração intensa, mas não explica por si só por que uma pessoa sente uma experiência subjetiva mais forte do que outra.
Rede ligada à percepção de si entrou na análise
Os cientistas também estudaram a chamada default mode network, ou rede de modo padrão. Trata-se de um conjunto de regiões cerebrais frequentemente associado a processos como autorreferência, lembranças autobiográficas e pensamentos voltados para o próprio indivíduo.
Essa rede tornou-se particularmente interessante para pesquisadores de psicodélicos porque alterações em sua conectividade já foram observadas em experimentos com substâncias como psilocibina e LSD.
No novo estudo, porém, não houve uma mudança significativa da conectividade da rede de modo padrão quando todos os participantes foram analisados em conjunto.
Uma associação apareceu, mas precisa de cautela
Em uma análise exploratória, os pesquisadores encontraram um resultado intrigante. Participantes que apresentaram maiores reduções na conectividade dentro da rede de modo padrão tenderam a relatar experiências alteradas mais intensas.
Mas há uma limitação estatística importante. A associação apareceu quando os dados foram analisados utilizando uma técnica de processamento chamada global signal regression.
Quando essa técnica não foi aplicada, a relação deixou de ser estatisticamente significativa. Por isso, os próprios resultados não permitem concluir que mudanças na rede de modo padrão sejam definitivamente responsáveis pelas experiências.
O achado funciona mais como uma pista a ser investigada em novos estudos.
Pesquisa ainda é pequena
Apesar do efeito vascular expressivo, o experimento possui limitações relevantes. Foram apenas 30 participantes, todos eles já experientes nesse tipo de respiração. Além disso, o estudo não utilizou um grupo de controle realizando outra atividade respiratória nas mesmas condições.
Em comentário divulgado pelo ECNP, o pesquisador Guy Fincham, que não participou do trabalho, destacou justamente que estudos randomizados e controlados com pessoas sem experiência anterior serão necessários para saber até que ponto os resultados podem ser generalizados.
Isso também significa que o estudo não demonstra que qualquer pessoa terá os mesmos efeitos ao realizar uma técnica semelhante.
Resultado não comprova benefício terapêutico
Outra distinção importante é entre descobrir como uma prática altera o cérebro e demonstrar que ela trata alguma doença. Os pesquisadores consideram a respiração de alta ventilação interessante justamente porque ela pode produzir estados alterados sem o uso de substâncias farmacológicas.
Isso pode transformá-la em uma ferramenta experimental para estudar consciência e alguns mecanismos investigados também na pesquisa com psicodélicos.
Mas o trabalho atual não é um ensaio clínico demonstrando tratamento para depressão, ansiedade ou qualquer outro transtorno. Os próprios pesquisadores afirmam que estudos maiores serão necessários para determinar se essas alterações cerebrais possuem relevância clínica.
O cérebro mudou muito, mas a experiência parece ser mais complexa
O estudo deixa uma conclusão particularmente interessante. Durante a prática respiratória, ocorreu uma alteração fisiológica enorme: o fluxo sanguíneo global da massa cinzenta caiu quase pela metade.
Mesmo assim, essa queda não explicou quem apresentou as experiências subjetivas mais intensas.
Para os autores, isso indica que alterações vasculares e mudanças na comunicação entre redes cerebrais podem representar processos parcialmente independentes durante estados alterados produzidos pela respiração.
Em outras palavras, diminuir o fluxo sanguíneo parece ser uma parte importante do que acontece no cérebro durante esse tipo extremo de respiração.
Mas transformar esse fenômeno fisiológico em uma mudança profunda da percepção e da consciência aparentemente envolve uma história bem mais complicada.
Fonte científica: Schmitz, Christian N. et al. How high ventilation breathwork alters consciousness: Hypoperfusion, network dynamics, and subjective experience. Progress in Neuro-Psychopharmacology & Biological Psychiatry, vol. 149, artigo 111873. DOI: 10.1016/j.pnpbp.2026.111873.




