Contornos do trato vocal mostram diferentes configurações usadas por falantes para produzir as mesmas vogais. (Imagem: Tiena Danner e Christoph Zollikofer / CC BY 4.0)
Por que pessoas que falam a mesma língua nunca produzem exatamente os mesmos sons? Parte da resposta pode estar não apenas no sotaque, na cultura ou no aprendizado, mas também na própria anatomia.
Um estudo publicado nesta terça-feira (13) na revista científica PLOS Biology indica que diferenças naturais no formato do trato vocal, conjunto de estruturas envolvendo boca, língua, faringe e outras regiões utilizadas para produzir a fala, deixam marcas mensuráveis nos sons emitidos pelas pessoas. Mais do que isso: os pesquisadores encontraram padrões semelhantes quando compararam falantes de diferentes línguas.
A descoberta levanta uma possibilidade interessante: parte da enorme diversidade de sons existentes nas línguas humanas pode ter começado com pequenas diferenças físicas entre os próprios falantes.
Na primeira etapa do trabalho, pesquisadores liderados por Steven Moran e Tiena Danner, da Universidade de Neuchâtel, na Suíça, analisaram dados de ressonância magnética em tempo real de 32 falantes de inglês americano, 16 homens e 16 mulheres.
As imagens pertencem ao banco aberto USC 75-Speaker Speech MRI Database e permitem observar a movimentação do trato vocal enquanto uma pessoa fala.
Os pesquisadores concentraram a análise nas cinco vogais cardinais representadas por i, e, a, o e u. O que apareceu nas imagens foi uma grande diversidade.
Duas pessoas conseguem produzir uma vogal reconhecível como o mesmo som mesmo utilizando configurações um pouco diferentes da língua e de outras estruturas do trato vocal. Isso ocorre porque cada falante adapta os movimentos à própria anatomia.
Mas a compensação não elimina completamente as diferenças. Mesmo quando o resultado continua perfeitamente compreensível para outros falantes, características individuais do trato vocal deixam pequenas assinaturas acústicas no som produzido.
Isso ajuda a explicar por que duas pessoas nunca possuem exatamente a mesma voz ou pronúncia. Uma pessoa pode ter proporções ligeiramente diferentes na cavidade oral, posição da língua, comprimento ou geometria do trato vocal. Para produzir determinado som, o cérebro aprende a coordenar essas estruturas de forma compatível com aquele corpo.
O resultado final pode ser linguisticamente equivalente, mas não acusticamente idêntico. Segundo os pesquisadores, essas pequenas diferenças costumam ser tratadas em estudos linguísticos como uma espécie de variação individual que precisa ser eliminada das análises.
O novo trabalho propõe olhar para elas de outra maneira: essa variação pode representar justamente a matéria-prima a partir da qual diferenças maiores surgem ao longo da evolução das línguas.
A equipe não ficou apenas nas imagens dos 32 participantes. Os pesquisadores também analisaram um conjunto muito maior de dados acústicos para verificar se os padrões observados entre indivíduos apareciam em escala linguística.
Em uma apresentação anterior do trabalho, a equipe descreveu a análise de 19.335 produções de vogais feitas por 3.867 falantes, cobrindo dez línguas: basco, búlgaro, hindi, italiano, português, romeno, russo, tâmil, turco e vietnamita.
Os dados permitiram comparar tanto a variação existente entre pessoas que falavam a mesma língua quanto as diferenças encontradas entre línguas diferentes.
E foi justamente aí que surgiu o resultado mais interessante. Os padrões de variação fonética encontrados dentro das populações apresentaram semelhanças com os padrões que diferenciavam uma língua da outra.
Em outras palavras, parte das diferenças que hoje separam os sistemas de sons de diferentes línguas parece estar presente, em escala menor, na própria diversidade existente entre indivíduos.
A ideia parte de um princípio conhecido na biologia evolutiva: a variação existente dentro de um grupo fornece matéria-prima para diferenças futuras entre grupos.
Os autores aplicaram raciocínio semelhante à fala. Imagine uma população na qual dezenas ou centenas de pessoas produzam determinado som com pequenas diferenças. Em situações normais, essas variações convivem porque todos continuam se entendendo.
Com gerações sucessivas, separação entre populações, mudanças culturais, contato com outros povos e transformação dos hábitos de fala, algumas dessas variantes podem se tornar mais comuns enquanto outras desaparecem.
Ao longo de períodos suficientemente longos, dois grupos originalmente semelhantes poderiam acabar desenvolvendo sistemas fonéticos diferentes.
O estudo propõe chamar essa referência de modelo de evolução “semelhante à neutra” dos sons das línguas. Ele serviria como uma linha de base para tentar separar mudanças que poderiam decorrer da variação natural dos falantes daquelas provocadas predominantemente por processos históricos ou culturais.
Esse é o principal cuidado ao interpretar o estudo. Os pesquisadores não estão afirmando que o formato da garganta ou da boca determina a língua de uma população, nem que diferenças anatômicas sejam suficientes para explicar por que português, hindi ou vietnamita possuem sistemas sonoros distintos.
O desenvolvimento de uma língua envolve transmissão cultural, migrações, contato entre populações, aprendizagem e milhares de anos de mudanças históricas.
A proposta é mais específica: a anatomia pode fornecer pequenos vieses e variações acústicas sobre os quais esses processos culturais atuam.
Os próprios autores descrevem a evolução da fala como resultado da combinação entre diversidade biológica dentro das populações e forças socioculturais.
A parte anatômica da pesquisa utilizou apenas 32 pessoas, número relativamente pequeno para representar toda a diversidade existente na espécie humana.
Os próprios pesquisadores também reconhecem que a comparação linguística alcança apenas parte das famílias de línguas existentes no planeta.
Por isso, os resultados não demonstram que diferenças anatômicas foram responsáveis por determinada mudança histórica em uma língua específica.
O trabalho oferece sobretudo um mecanismo plausível e mensurável: corpos ligeiramente diferentes produzem variações sistemáticas na fala, e padrões semelhantes de variação aparecem quando diferentes comunidades linguísticas são comparadas.
Agora, o modelo poderá ser testado com populações, línguas e conjuntos anatômicos maiores.
O artigo, intitulado Interindividual vocal tract diversity influences the phonetic diversification of spoken languages, foi publicado em acesso aberto na PLOS Biology e tem o DOI 10.1371/journal.pbio.3004003.
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