Exemplar de Pseudorabdion longiceps, uma das espécies estudadas. Fotografia de arquivo feita na Tailândia em 2020, não durante o experimento. (Foto: Autor: Rushen; crédito solicitado: Thai National Parks. Licença CC BY-SA 2.0)
Imagine uma cobra tentando escapar de um predador. O esperado seria vê-la rastejando rapidamente pelo chão, mas algumas pequenas serpentes do Sudeste Asiático desenvolveram uma estratégia bastante diferente: elas dão cambalhotas sucessivas, movimentando-se de uma maneira que lembra uma roda.
O comportamento já havia sido observado anteriormente, mas cientistas conseguiram agora explicar como esses animais realizam a manobra sem perder o controle da direção. O segredo está em uma combinação de movimentos corporais que permite girar rapidamente enquanto a cabeça permanece relativamente estável.
A descoberta foi apresentada em um estudo publicado em 19 de outubro na revista científica Current Biology, conduzido por pesquisadores de instituições do Japão e da Malásia.
Durante os experimentos, as serpentes atingiram picos de velocidade entre 1,72 e 3,69 metros por segundo. O maior valor corresponde a aproximadamente 13,3 km/h, uma velocidade surpreendente para animais que medem apenas algumas dezenas de centímetros.
Nos testes, o rolamento chegou a ser cerca de quatro vezes mais rápido que a locomoção convencional dessas cobras.
O movimento parece simples quando observado rapidamente, mas envolve um desafio que não existe nas rodas convencionais.
Uma roda gira ao redor de um eixo. Já uma cobra não possui nenhuma estrutura que permita ao corpo realizar esse movimento de forma independente da cabeça. Se o animal simplesmente girasse inteiro, seus olhos e demais órgãos sensoriais também seriam movimentados constantemente, dificultando o controle da trajetória.
As serpentes estudadas resolveram esse problema de uma maneira engenhosa. Primeiro, o corpo assume uma posição bastante curvada, semelhante à letra C. Em seguida, a parte posterior é impulsionada em um movimento rápido, enquanto uma seção arqueada do corpo passa ao lado da cabeça e volta a tocar o solo.
Na sequência, o animal repete a manobra, alternando o lado do corpo que entra em contato com o chão e a direção em que realiza o impulso. Essa sucessão de movimentos cria o efeito visual de uma cobra dando cambalhotas pelo terreno.
O detalhe mais impressionante é que a cabeça não acompanha a rotação completa. Enquanto boa parte do corpo gira, ela continua apontada para a direção do deslocamento e mantém uma altura relativamente constante.
Os pesquisadores observaram ainda que, quanto maior a velocidade, mais as serpentes tendem a manter a cabeça elevada e reduzir seus movimentos verticais.
Essa capacidade de estabilização pode ser fundamental para que continuem controlando a trajetória durante uma fuga tão rápida.
Para investigar o comportamento, os cientistas utilizaram serpentes de três espécies do gênero Pseudorabdion, encontradas no Sudeste Asiático.
A equipe reuniu 13 exemplares dessas espécies e outros seis animais do gênero Calamaria para comparação. Os testes foram realizados em uma pista de aproximadamente 2,2 metros de comprimento, com câmeras registrando os movimentos de diferentes ângulos.
Todos os exemplares de Pseudorabdion observados no experimento realizaram o movimento de rolamento, enquanto os seis animais do grupo utilizado para comparação não apresentaram o mesmo comportamento.
Mesmo durante as manobras mais rápidas, as cobras conseguiram seguir por uma pista com apenas 20 centímetros de largura, indicando que não estavam simplesmente rolando de maneira descontrolada.
Esses resultados ajudam a explicar como um animal sem patas consegue transformar o próprio corpo em um mecanismo de locomoção tão incomum.
Em 2023, pesquisadores já haviam documentado uma cobra da espécie Pseudorabdion longiceps realizando cambalhotas para escapar de uma situação de ameaça.
Naquela época, a observação chamou atenção justamente por mostrar um tipo de movimento extremamente raro entre serpentes. Entretanto, ainda não estava claro como o corpo produzia as rotações e, principalmente, como o animal conseguia manter a cabeça orientada para a frente.
O novo estudo avançou nessa explicação ao analisar detalhadamente a sequência de movimentos em três espécies diferentes.
Apesar dos resultados, algumas perguntas permanecem sem resposta. Os pesquisadores ainda precisam compreender se essas serpentes possuem adaptações anatômicas ou neurológicas específicas que possibilitam a manobra, ou se outras espécies também seriam fisicamente capazes de executá-la.
Além disso, as velocidades foram medidas em condições experimentais. O estudo não demonstra que as cobras consigam manter esse ritmo por longas distâncias nem quantifica quanto o movimento aumenta suas chances de sobrevivência na natureza.
Ainda assim, a pesquisa revela uma solução surpreendente encontrada pela evolução: mesmo sem patas ou rodas, esses pequenos animais conseguem realizar um deslocamento rápido e coordenado que seria difícil de imaginar apenas observando o formato de seus corpos.
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