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AMBIENTE

Terremoto de 7,7 pode ter deixado rastro invisível a 600 km de distância

Estudo identifica aumento persistente de hélio em nascente a 600 km do terremoto de Mianmar. Cientistas investigam efeitos prolongados na crosta terrestre.

M7.7Burma
Mapa produzido pelo Serviço Geológico dos Estados Unidos mostra a distribuição estimada da intensidade dos tremores provocados pelo terremoto de magnitude 7,7 que atingiu Mianmar em 28 de março de 2025. Um estudo publicado em novembro de 2026 identificou uma anomalia de hélio em uma nascente localizada cerca de 600 km da região do abalo (USGS - United States Geological Survey)

Pesquisadores identificaram um aumento persistente de hélio em uma nascente termal na China após o grande terremoto que atingiu Mianmar em 2025. O fenômeno sugere que mudanças profundas na crosta terrestre podem continuar produzindo efeitos meses depois de um abalo.

Um terremoto que atingiu Mianmar em março de 2025 pode ter provocado alterações químicas no subsolo a aproximadamente 600 quilômetros de distância. Em uma nascente termal localizada na China, pesquisadores identificaram um aumento persistente na concentração de hélio presente nos gases liberados pela água. O comportamento começou a se intensificar após o abalo e continuou sendo observado nos meses seguintes.

O achado foi apresentado em um estudo publicado em 5 de novembro de 2026 na revista científica Communications Earth & Environment, do grupo Nature. A pesquisa foi conduzida por cientistas de instituições chinesas, incluindo o Instituto de Previsão de Terremotos da Administração de Terremotos da China.

O fenômeno chamou a atenção por ocorrer muito longe da região diretamente atingida pelo terremoto de magnitude 7,7, registrado em 28 de março de 2025, próximo à cidade de Mandalay.

O gás detectado não teria viajado centenas de quilômetros desde Mianmar. A explicação proposta pelos pesquisadores é mais complexa: o terremoto pode ter modificado o estado de tensão das rochas em uma área distante, alterando o movimento de fluidos subterrâneos e favorecendo a liberação de hélio que já existia na crosta terrestre.

Se confirmada por outras observações, essa interpretação ajudará a compreender por que os efeitos de grandes terremotos podem continuar se manifestando muito depois que o tremor termina.

Uma nascente termal registrou mudanças depois do terremoto

A descoberta ocorreu na região da falha do Rio Vermelho, um importante sistema geológico que atravessa áreas do sudoeste da China e do Sudeste Asiático.

Falhas são grandes fraturas ou zonas de deformação da crosta terrestre nas quais blocos de rocha podem se movimentar uns em relação aos outros. Além de concentrarem tensões tectônicas, essas estruturas também podem influenciar a circulação de água e gases subterrâneos.

Em algumas regiões, a água que circula por essas fraturas é aquecida em profundidade e retorna à superfície, formando nascentes termais.

Essas fontes naturais podem transportar pequenas quantidades de gases que permaneceram armazenados nas rochas durante longos períodos. Por isso, mudanças na composição dos gases podem fornecer pistas sobre processos que não são diretamente visíveis na superfície.

Os cientistas analisaram registros de monitoramento de hélio em uma dessas nascentes. O sistema realizava medições em intervalos de aproximadamente um minuto, permitindo acompanhar variações muito pequenas na concentração do gás.

Antes do terremoto, os registros apresentavam flutuações intermitentes. Depois do grande abalo, porém, os pesquisadores observaram uma tendência progressiva de aumento da concentração.

A diferença entre os dois comportamentos foi um dos elementos que motivaram a investigação.

Não se tratava apenas de uma oscilação momentânea registrada durante a passagem das ondas sísmicas. O sinal persistiu após o evento, sugerindo que poderia estar relacionado a mudanças prolongadas nas condições subterrâneas.

Como um terremoto pode afetar uma região tão distante?

Para entender o fenômeno, é necessário considerar que um terremoto não altera apenas as rochas situadas exatamente sobre a falha que se rompe.

Quando blocos da crosta terrestre se deslocam, a distribuição das tensões ao redor deles também muda. Essas alterações podem afetar outras estruturas geológicas, inclusive regiões relativamente afastadas.

Parte dessas mudanças ocorre imediatamente, durante o terremoto. Outra parte pode se desenvolver lentamente, enquanto as camadas mais profundas da Terra respondem à redistribuição das forças.

Esse processo é conhecido como relaxamento viscoelástico.

O termo descreve o comportamento de materiais que combinam duas propriedades: podem sofrer deformações elásticas, respondendo às forças aplicadas, mas também apresentar mudanças graduais ao longo do tempo.

Nas profundezas da crosta terrestre, rochas submetidas a temperaturas e pressões elevadas podem se deformar lentamente sem necessariamente se romper de maneira brusca.

Após um grande terremoto, essa deformação progressiva ajuda a redistribuir tensões que não desaparecem quando o movimento inicial termina.

É justamente esse mecanismo que os pesquisadores investigaram.

A hipótese é que as mudanças provocadas pelo terremoto de Mianmar tenham alterado as condições mecânicas da falha do Rio Vermelho, favorecendo modificações na circulação de fluidos e na concentração de hélio detectada na nascente.

Os cálculos consideraram alterações na chamada tensão de Coulomb, uma medida utilizada em geofísica para avaliar como mudanças nas forças atuantes podem favorecer ou dificultar o deslizamento de determinadas falhas.

Os resultados apontaram condições compatíveis com uma redistribuição progressiva dessas tensões na região estudada.

O hélio revelou de onde vinha o gás

Uma das etapas mais importantes da investigação foi identificar a provável origem do hélio adicional.

Esse elemento químico existe em diferentes formas isotópicas, que possuem o mesmo número de prótons, mas quantidades distintas de nêutrons.

Duas delas são particularmente úteis para estudos geológicos: hélio-3 e hélio-4.

O hélio-4 pode ser produzido ao longo de milhões de anos pelo decaimento radioativo natural de elementos presentes nas rochas, como urânio e tório.

Já determinadas proporções de hélio-3 e hélio-4 podem indicar contribuições de reservatórios mais profundos da Terra, incluindo o manto.

Ao analisar as relações isotópicas de hélio e neônio em uma nascente próxima, a equipe encontrou evidências de que o gás adicional tinha origem predominantemente na crosta terrestre e estava associado a processos radiogênicos.

Não foi identificado um aumento mensurável da contribuição de hélio proveniente do manto.

Essa distinção é fundamental.

Os dados não apontam para o surgimento de uma nova fonte profunda de gás ou para uma atividade vulcânica provocada pelo terremoto. A interpretação favorecida é que mudanças nas condições da crosta tenham alterado a concentração do hélio já presente no sistema hidrotermal.

Em outras palavras, o terremoto pode ter influenciado a maneira como gases subterrâneos circulam e chegam à superfície, sem necessariamente produzir novos gases.

Pesquisadores investigaram outras possíveis explicações

Uma elevação na concentração de hélio não é, por si só, prova de que um terremoto tenha causado o fenômeno.

Nascentes termais são sistemas naturais complexos. A composição dos gases pode variar de acordo com mudanças na circulação de água, alterações de pressão e outros fatores ambientais.

Para verificar se essas condições poderiam explicar a anomalia, os pesquisadores compararam os registros de hélio com informações sobre o nível da água subterrânea, as chuvas e a pressão atmosférica.

Também consideraram a possibilidade de alterações graduais no funcionamento do equipamento responsável pelas medições.

Nenhuma dessas explicações, dentro das condições avaliadas, conseguiu reproduzir adequadamente o comportamento observado após o terremoto.

A equipe então analisou a atividade sísmica regional e realizou cálculos sobre a redistribuição das tensões na falha do Rio Vermelho.

Os resultados foram compatíveis com a hipótese de que o relaxamento progressivo das camadas inferiores da crosta tenha contribuído para manter as alterações no sistema subterrâneo.

Isso não significa que todos os mecanismos responsáveis pelo aumento de hélio tenham sido identificados definitivamente.

Os próprios pesquisadores consideram a possibilidade de que pequenos terremotos locais também tenham reforçado as mudanças observadas.

A ligação com o grande abalo de Mianmar, portanto, é sustentada por uma combinação de observações e modelos geofísicos, mas não constitui uma demonstração experimental direta de causa e efeito.

Os efeitos podem continuar por anos

Um dos resultados mais interessantes do trabalho aparece nas simulações sobre a evolução das tensões na crosta.

Segundo os modelos, as mudanças acumuladas após o terremoto podem atingir, ao longo de aproximadamente uma década, valores comparáveis à alteração produzida imediatamente durante o abalo.

Isso sugere que parte da resposta geológica a um terremoto pode ser distribuída por um período muito maior do que os segundos ou minutos em que o solo permanece tremendo.

Os autores também discutem a possibilidade de que os efeitos sobre a circulação de gases persistam por períodos ainda mais longos.

Entretanto, é necessário distinguir o que foi efetivamente observado daquilo que foi projetado pelos modelos.

O monitoramento identificou um aumento persistente da concentração de hélio depois do terremoto. Já a evolução das tensões ao longo de muitos anos representa uma previsão física, que depende das características utilizadas nas simulações.

Não existe uma observação de décadas demonstrando que a mesma nascente continuará apresentando concentrações elevadas durante todo esse período.

Ainda assim, a pesquisa reforça uma característica importante dos grandes terremotos: seus efeitos subterrâneos podem continuar evoluindo muito depois do evento inicial.

O hélio poderia ajudar a prever terremotos?

A possibilidade de identificar alterações químicas relacionadas à atividade tectônica desperta interesse porque muitos pesquisadores procuram maneiras de compreender o comportamento das falhas antes e depois de grandes terremotos.

Gases como hélio e radônio já são investigados como possíveis indicadores de mudanças nas condições do subsolo.

Mas existe uma diferença essencial entre identificar uma alteração associada a um terremoto e utilizar essa alteração para prever quando outro ocorrerá.

No estudo publicado agora, a anomalia principal foi observada após um grande abalo já conhecido.

Além disso, os registros anteriores apresentavam flutuações que não foram demonstradas como sinais capazes de antecipar o terremoto de Mianmar.

Os resultados, portanto, não oferecem um método confiável de previsão sísmica.

A principal contribuição está na possibilidade de utilizar medições químicas contínuas como uma ferramenta complementar para estudar deformações subterrâneas difíceis de acompanhar diretamente.

Essas informações podem ajudar os cientistas a investigar a circulação de fluidos, as alterações de pressão e a redistribuição de tensões em regiões tectonicamente ativas.

Para isso, será necessário comparar o comportamento de diferentes nascentes, analisar novos terremotos e verificar se os mecanismos propostos se repetem em outros sistemas geológicos.

O estudo também mostra que a resposta química de uma região pode guardar informações sobre processos físicos que ocorrem muito abaixo da superfície.

Mais de um ano depois do terremoto que devastou áreas de Mianmar, os pesquisadores encontraram nas medições de uma nascente distante uma possível manifestação de seus efeitos prolongados.

O tremor terminou em poucos instantes. As transformações desencadeadas nas profundezas da Terra, porém, podem estar longe de terminar.


Fonte científica: He, Hongyi; Chen, Zhi; Li, Yujiang; Gao, Zihan; Liu, Zhaofei; Huang, Zhikeng; Zhang, Ke; Li, Ying; Luo, Qingyong. Sustained crustal helium enrichment associated with postseismic viscoelastic relaxation following the 2025 Myanmar earthquake. Communications Earth & Environment, publicado online em 5 de novembro de 2026. DOI: 10.1038/s43247-026-04099-2. Acessar o estudo científico original.

Fonte institucional complementar: United States Geological Survey (USGS). M 7.7 — 2025 Mandalay, Burma (Myanmar) Earthquake. Registro oficial do terremoto de 28 de março de 2025, incluindo localização, magnitude, profundidade e mapas de intensidade. Consultar os registros oficiais do terremoto.