Pesquisadores identificaram vestígios genéticos da bactéria em restos mortais encontrados no Equador. O estudo também revelou a continuidade de uma população antiga durante aproximadamente 1.500 anos.
Há cerca de 2.300 anos, muito antes da chegada dos europeus à América, uma criança de aproximadamente seis a nove meses morreu em uma comunidade que vivia às margens do Oceano Pacífico, no território que hoje pertence ao Equador. Milênios depois, seus restos mortais ajudaram cientistas a recuperar uma parte inesperada da história das doenças no continente.
Ao analisar o DNA preservado nos ossos da criança, pesquisadores identificaram material genético de bactérias pertencentes ao complexo Mycobacterium tuberculosis, responsável por diferentes formas de tuberculose.
A descoberta oferece uma das evidências moleculares mais antigas dessa infecção na América do Sul anterior ao contato europeu e confirma que a doença já circulava entre populações da costa equatoriana na Antiguidade.
Os resultados foram publicados em 27 de outubro de 2026 na revista científica PNAS Nexus, em um estudo conduzido por pesquisadores de instituições como a Universidade da Califórnia em Berkeley, a Universidade Emory e a Universidade Técnica de Manabí.
O trabalho também revelou outro detalhe importante: apesar de grandes mudanças ambientais e culturais, habitantes da região de Salango mantiveram uma continuidade genética significativa ao longo de aproximadamente 1.500 anos.
Um sepultamento antigo escondia pistas de uma infecção
Os restos mortais foram encontrados em Salango, uma localidade arqueológica na costa central do Equador, durante escavações realizadas entre dezembro de 2014 e janeiro de 2016.
O local possui uma história de ocupação humana marcada por transformações culturais, práticas funerárias e relações comerciais com outras regiões andinas.
Entre os sepultamentos investigados estava o de um bebê pertencente à fase cultural conhecida como Guangala Muito Inicial, situada aproximadamente entre 300 e 200 antes de Cristo.
A criança apresentava alterações importantes em diferentes ossos, incluindo costelas, braços, ombros e partes do crânio.
Os pesquisadores observaram lesões compatíveis com processos infecciosos que afetavam o tecido ósseo. A distribuição dessas alterações sugeria uma possível infecção por tuberculose, hipótese já levantada em análises anteriores dos restos mortais.
Os sinais encontrados também eram compatíveis com possibilidades como tuberculose congênita ou meningite tuberculosa. Entretanto, os ossos, isoladamente, não permitiam determinar com segurança a causa da doença.
Foi a análise genética que trouxe uma evidência adicional.
Como os cientistas encontraram DNA de uma bactéria tão antiga?
Para investigar a infecção, a equipe extraiu material genético de uma região do osso temporal conhecida como porção petrosa, localizada na base do crânio.
Essa estrutura possui tecido ósseo particularmente denso, uma característica que pode favorecer a preservação de DNA durante longos períodos.
Depois de sequenciar o material recuperado, os pesquisadores utilizaram ferramentas de bioinformática para separar fragmentos genéticos humanos daqueles pertencentes a microrganismos.
A análise identificou mais de 8 mil fragmentos de DNA classificados como pertencentes à bactéria Mycobacterium tuberculosis, além de sequências relacionadas a outros integrantes do mesmo complexo bacteriano.
Os cientistas compararam esses fragmentos com um genoma de referência e obtiveram uma reconstrução parcial do material genético do patógeno.
Mas havia uma questão essencial: como saber se o DNA realmente tinha milhares de anos e não havia sido introduzido por contaminação moderna?
Para responder, os pesquisadores examinaram padrões característicos de degradação molecular.
Com o passar dos séculos, o DNA sofre modificações químicas que deixam marcas reconhecíveis em suas sequências. O material recuperado do bebê apresentava justamente esses sinais de envelhecimento.
Quando comparado com uma amostra moderna de referência, o DNA antigo exibiu alterações típicas que não estavam presentes no controle contemporâneo.
A combinação dessas evidências deu sustentação à conclusão de que os vestígios bacterianos pertenciam a uma infecção antiga.
A tuberculose já existia na América antes da colonização europeia
A identificação do material genético contribui para uma questão importante da história da medicina: a presença e a diversidade da tuberculose entre populações americanas antes do contato com os europeus.
A doença muitas vezes é associada, no imaginário popular, às grandes epidemias que acompanharam a expansão colonial. Entretanto, estudos arqueológicos e genéticos já demonstraram que integrantes do complexo bacteriano da tuberculose circulavam nas Américas antes desse período.
O novo trabalho acrescenta uma evidência particularmente antiga, envolvendo uma criança que viveu na costa do Equador aproximadamente 2.300 anos atrás.
Isso não significa que os pesquisadores tenham descoberto a primeira pessoa infectada do continente, nem identificado exatamente quando a bactéria chegou à América do Sul.
A análise também não conseguiu definir com precisão a linhagem evolutiva do microrganismo encontrado.
Embora tenha sido possível recuperar parte significativa do genoma bacteriano, os dados disponíveis não foram suficientes para reconstruir detalhadamente suas relações com outras linhagens antigas e modernas.
Por isso, a descoberta confirma a presença da infecção naquele contexto arqueológico, mas não determina sua origem geográfica nem o caminho pelo qual ela se espalhou.
Quatro pessoas revelam 1.500 anos de continuidade genética
A investigação não se limitou ao bebê com sinais de tuberculose.
Os pesquisadores sequenciaram genomas de quatro indivíduos encontrados em Salango, pertencentes a diferentes momentos da ocupação do local.
Dois viveram há aproximadamente 2.300 anos, outro há cerca de 1.900 anos e o mais recente há aproximadamente 740 anos.
Ao comparar esses materiais com dados genéticos de populações indígenas antigas e contemporâneas das Américas, a equipe encontrou semelhanças entre os habitantes de Salango, apesar da grande distância temporal entre seus sepultamentos.
Os resultados sugerem a preservação de uma parcela importante da ancestralidade local durante aproximadamente 1.500 anos.
Essa continuidade é particularmente interessante porque a região enfrentou transformações ambientais e sociais expressivas.
Uma delas foi a erupção do vulcão Pululahua, ocorrida por volta de 330 antes de Cristo, que alterou profundamente a paisagem e a ocupação humana de partes do atual território equatoriano.
Ao longo dos séculos seguintes, também ocorreram mudanças nas tradições funerárias, nas estruturas políticas e nas redes comerciais.
Mesmo assim, o material genético analisado revelou vínculos de ancestralidade entre pessoas que viveram em períodos bastante diferentes.
Isso não quer dizer que a população tenha permanecido isolada ou geneticamente inalterada. Os resultados também mostram conexões com grupos de outras áreas dos Andes e da costa do Pacífico.
Como apenas quatro indivíduos foram analisados, o estudo não permite reconstruir sozinho toda a história demográfica da região.
Pesquisa também ajuda a compreender o povoamento da América do Sul
Outro resultado da investigação envolve as relações genéticas entre antigos habitantes do Equador e populações de outras partes do continente.
Os cientistas encontraram afinidades com grupos associados aos atuais territórios do Peru e da Colômbia, além de conexões mais amplas com populações antigas da América do Sul.
Modelos demográficos apresentados no estudo sugeriram que a linhagem ancestral da costa equatoriana pode ter se diferenciado de outras linhagens sul-americanas há aproximadamente 9.800 anos.
Os próprios autores ressaltam, porém, que essa estimativa depende das hipóteses e dos parâmetros utilizados nos modelos computacionais. Portanto, não representa uma data definitiva para a separação entre populações.
A importância do trabalho também está relacionada à escassez de dados genéticos antigos provenientes do Equador.
Embora exista um número crescente de pesquisas envolvendo esqueletos arqueológicos do Peru, do Chile e de outras partes das Américas, diversas regiões continuam pouco representadas nos bancos de dados científicos.
Os quatro genomas de Salango ajudam a preencher parte dessa lacuna e oferecem novas possibilidades para investigar a formação das populações indígenas da costa do Pacífico.
Uma descoberta que também dependeu da comunidade local
Além das análises em laboratório, a pesquisa envolveu procedimentos de autorização e colaboração com a comunidade ancestral de Salango.
Segundo o artigo científico, os estudos genéticos receberam consentimento formal da comunidade, que estabeleceu condições para a utilização dos materiais arqueológicos.
Entre elas estão o compartilhamento dos resultados com os moradores e o museu local, a repatriação dos restos ancestrais e a elaboração de um protocolo para orientar futuras pesquisas.
Essa participação é especialmente importante em estudos que utilizam restos humanos de populações indígenas, pois envolve não apenas questões científicas, mas também patrimônio cultural e respeito às comunidades descendentes.
Mais de dois milênios após a morte de uma criança em Salango, seu DNA passou a oferecer informações que vão muito além de sua história individual.
A descoberta ajuda a compreender tanto a circulação de doenças infecciosas na América antiga quanto as relações de ancestralidade entre populações que atravessaram séculos de mudanças.
E mostra como fragmentos genéticos preservados em ossos arqueológicos podem revelar capítulos da história humana que não foram registrados em documentos escritos.
Fonte científica: Lindo, J. e colaboradores. Ancient Ecuadorian genomes reveal millennia of genetic continuity on the Pacific Coast of South America. PNAS Nexus, publicado em 27 de outubro de 2026. Acessar o estudo original.
