Mandíbula fóssil de Paranthropus robustus encontrada em Drimolen, na África do Sul. (Foto: Jesse Martin et al./La Trobe University)
Um pequeno fragmento de crânio encontrado em uma caverna da África do Sul está ajudando cientistas a preencher uma lacuna importante na história de um dos integrantes mais conhecidos da evolução humana.
Pesquisadores identificaram o fóssil, chamado DNH 127, como pertencente a um Homo erectus adulto que viveu há aproximadamente 2 milhões de anos. O achado fornece uma segunda evidência independente de que essa espécie já estava presente no sul da África nesse período.
A descoberta é especialmente importante porque a evidência anterior encontrada no mesmo local pertencia a uma criança pequena. Agora, pela primeira vez, os cientistas possuem também parte do crânio de um indivíduo adulto daquela população.
O estudo foi publicado no periódico científico Annals of Human Biology e descreve 18 fósseis de hominínios que ainda não haviam sido formalmente estudados, embora alguns estivessem armazenados havia décadas.
O local onde os fósseis foram encontrados é conhecido como Drimolen Main Quarry, uma caverna situada na região chamada de Berço da Humanidade, cerca de 40 quilômetros a nordeste de Joanesburgo.
Em 2020, pesquisadores anunciaram ali o fóssil DNH 134, parte do crânio de uma criança Homo erectus que teria entre dois e quatro anos de idade.
As camadas de Drimolen nas quais esses fósseis aparecem foram datadas entre aproximadamente 2,04 milhões e 1,95 milhão de anos. Isso colocou o exemplar entre as evidências mais antigas conhecidas da espécie. Mas havia uma complicação.
Por pertencer a uma criança, algumas características do crânio poderiam mudar consideravelmente durante o crescimento. Isso deixava dúvidas sobre como seriam os adultos da população que vivia naquele local.
Foi justamente aí que o DNH 127 se tornou importante.
O novo estudo atribuiu o DNH 127 a um indivíduo adulto de Homo erectus. Segundo Jesse Martin, pesquisador da Universidade La Trobe e principal autor do trabalho, a identificação fornece uma confirmação adicional de que a espécie estava presente no sul da África há aproximadamente 2 milhões de anos.
A idade chama atenção quando comparada a outros exemplares adultos conhecidos. Os famosos fósseis de Homo erectus encontrados em Dmanisi, na Geórgia, por exemplo, têm cerca de 1,8 milhão de anos. O indivíduo adulto de Drimolen seria, portanto, aproximadamente 200 mil anos mais antigo.
Isso não significa que o novo fragmento, sozinho, tenha descoberto que o Homo erectus existia há 2 milhões de anos. O DNH 134 já apontava nessa direção.
A importância do novo fóssil está em reforçar a cronologia com um indivíduo adulto, reduzindo a possibilidade de que características observadas anteriormente fossem resultado apenas da pouca idade do primeiro exemplar.
O Homo erectus ocupa uma posição importante na história humana. Foi uma das primeiras espécies do gênero Homo a apresentar uma combinação de características corporais mais próximas das populações humanas posteriores e também uma das linhagens de hominínios que alcançaram grande distribuição geográfica.
Fósseis atribuídos à espécie ou a formas estreitamente relacionadas foram encontrados em regiões da África e da Ásia. Sua longa existência faz do Homo erectus uma peça fundamental para tentar reconstruir quando e onde diferentes populações humanas antigas surgiram e começaram a se dispersar.
Por isso, antecipar sua presença confirmada no sul da África em centenas de milhares de anos altera uma parte importante dessa cronologia.
O mais curioso é que a descoberta não veio de uma nova escavação. Drimolen é investigada desde 1992, e muitos fósseis retirados da caverna ao longo das décadas ainda não haviam recebido uma descrição científica completa.
No novo trabalho, os pesquisadores analisaram 18 desses espécimes cranianos escavados entre 1992 e 2019.
A classificação resultou em:
Esse conjunto também revelou algo interessante sobre quem dividia aquela paisagem com o Homo erectus.
Há aproximadamente 2 milhões de anos, Drimolen não era habitada por apenas um tipo de hominínio. Ali também vivia o Paranthropus robustus, espécie conhecida por possuir dentes grandes e adaptações cranianas relacionadas a uma mastigação poderosa.
Segundo os pesquisadores, seus fósseis aparecem em quantidade muito maior no sítio arqueológico. Martin afirma que, naquele período, registros de P. robustus em Drimolen superam os de Homo erectus em mais de dez para um.
O novo conjunto de fósseis também apoia a ideia de que essas populações de Paranthropus estavam mudando ao longo do tempo. Comparações entre exemplares de Drimolen, de cerca de 2 milhões de anos, e fósseis mais recentes encontrados em Swartkrans indicam aumento no tamanho dos dentes e das estruturas relacionadas à mastigação durante aproximadamente 200 mil anos.
Isso cria uma fotografia incomum daquele momento da evolução humana. Enquanto uma linhagem de Paranthropus desenvolvia adaptações cada vez mais especializadas para processar alimentos resistentes, o Homo erectus seguia uma trajetória diferente, associada a cérebros maiores e dentes molares relativamente menores.
As duas linhagens compartilharam a mesma região, mas acabaram tendo destinos muito diferentes. O Paranthropus desapareceu posteriormente do registro fóssil. Já populações relacionadas ao Homo erectus se espalharam por grandes áreas do Velho Mundo e fazem parte de uma história evolutiva ligada ao surgimento posterior de outras espécies humanas.
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