Reconstrução artística do Infernogallus jamesi, pequeno dinossauro descrito a partir de fósseis do fim do período Cretáceo. (Connor Ashbridge/Wikimedia Commons – CC BY 4.0)
Um pequeno dinossauro que viveu no fim do período Cretáceo pode ajudar os cientistas a entender uma relação que ainda guarda muitos mistérios: como a expansão das plantas com flores e de seus frutos influenciou a alimentação dos dinossauros.
Pesquisadores descreveram uma nova espécie chamada Infernogallus jamesi, pertencente ao grupo dos oviraptorossauros caenagnatídeos. O fóssil preservou um crânio quase completo e articulado, o primeiro conhecido nesse nível de preservação para esse grupo, e revelou adaptações surpreendentes na mandíbula. O estudo foi publicado em 10 de outubro na revista Nature Communications.
A anatomia indica que o animal era um herbívoro altamente especializado, provavelmente adaptado ao consumo de alimentos macios. Segundo os autores, uma parte importante dessa dieta pode ter sido formada por frutos carnosos de angiospermas, grupo que reúne as plantas com flores.
Uma das descobertas mais interessantes está na maneira como o Infernogallus provavelmente movimentava a mandíbula.
Os pesquisadores identificaram alterações importantes na organização dos músculos responsáveis pela mordida, além de estruturas formadas por sulcos e saliências que se encaixavam quando o animal fechava a boca.
Em vez de simplesmente pressionar o alimento de cima para baixo, a mandíbula inferior também seria capaz de realizar movimentos para a frente e para trás, ajudando a processar alimentos macios dentro da boca. Esse mecanismo é incomum entre os dinossauros terópodes não aviários.
O mais curioso é que a equipe encontrou uma solução funcional parecida em papagaios modernos especializados em comer frutas. Isso não significa que o dinossauro fosse especialmente próximo dos papagaios, mas que grupos muito diferentes desenvolveram mecanismos semelhantes para lidar com tipos parecidos de alimento.
O fóssil também trouxe pistas importantes sobre o tamanho do animal. Análises do tecido ósseo indicam que o exemplar já havia atingido maturidade esquelética. Ou seja, seu porte reduzido não parece ser explicado simplesmente pelo fato de o fóssil pertencer a um indivíduo jovem que ainda iria crescer muito.
Estimativas apresentadas a partir do material apontam massa corporal em torno de 12 quilos, com margem de aproximadamente 3 quilos. O fêmur preservado mede cerca de 18,5 centímetros. Eigen Radar
O animal pertence à fauna da Formação Hell Creek, na América do Norte, uma das formações geológicas mais famosas do fim do Cretáceo e também conhecida por fósseis de dinossauros como Tyrannosaurus rex e Triceratops. Eigen Radar
A descoberta interessa aos pesquisadores por uma questão maior do que simplesmente descobrir o que um pequeno dinossauro colocava no prato há milhões de anos.
As angiospermas passaram por uma grande diversificação durante o Cretáceo. Seus frutos também aumentaram em diversidade e tamanho, transformando gradualmente os ecossistemas terrestres.
Ao mesmo tempo, diferentes grupos de dinossauros herbívoros também estavam se diversificando.
Apesar dessa coincidência temporal, demonstrar que determinados dinossauros desenvolveram adaptações específicas para explorar frutos produzidos por essas plantas é difícil.
Segundo o novo estudo, os caenagnatídeos estão agora entre os candidatos mais fortes conhecidos a apresentar adaptações diretamente relacionadas a uma alimentação baseada em angiospermas. A expansão dos frutos carnosos ocorreu aproximadamente no mesmo intervalo em que esses oviraptorossauros se diversificaram.
Há, porém, uma limitação importante. Os pesquisadores não encontraram frutas preservadas no estômago do animal, nem outro conteúdo digestivo capaz de mostrar diretamente sua última refeição.
A conclusão sobre o consumo de frutas vem principalmente da anatomia funcional do crânio, da mandíbula e da musculatura reconstruída, além da comparação com animais atuais.
Por isso, o estudo sustenta que frutos carnosos provavelmente compunham uma parcela importante da dieta, mas não permite determinar exatamente quais frutos eram consumidos nem demonstrar que o Infernogallus dispersava sementes.
Os próprios autores destacam que ainda não está claro qual papel esses dinossauros tiveram na proliferação dos frutos durante o fim do Cretáceo, um processo que acabaria contribuindo para a formação da flora encontrada no início da era seguinte.
A preservação excepcional do crânio é especialmente importante porque fósseis incompletos dificultavam reconstruir com precisão como os caenagnatídeos se alimentavam.
Com praticamente toda a estrutura disponível, os pesquisadores puderam relacionar articulações, áreas de inserção muscular e superfícies da mandíbula e propor como o alimento era manipulado dentro da boca.
O resultado apresenta um animal bem diferente da imagem tradicional de um dinossauro herbívoro simplesmente arrancando folhas: o Infernogallus jamesi aparentemente possuía uma verdadeira especialização mecânica para trabalhar alimentos macios antes de engoli-los.
E as frutas que começavam a ocupar espaço cada vez maior nos ecossistemas do Cretáceo podem ter sido justamente aquilo que tornou essa estranha mandíbula vantajosa.
Fonte científica: estudo “Fruit-eating adaptations in a Late Cretaceous oviraptorosaur (Theropoda)”, publicado na Nature Communications em 10 de outubro de 2026, DOI 10.1038/s41467-026-78343-w. Nature
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