Um fungo tão incomum que não coube adequadamente em nenhuma família conhecida acaba de ser descrito por cientistas na China.
A nova espécie, chamada Dianjunus rex, produz enormes estruturas que emergem do solo e das raízes de árvores. Elas podem atingir até 50 centímetros de altura, e o maior conjunto registrado pelos pesquisadores chegou a 2,2 quilos.
O tamanho é tão fora do comum que os autores descrevem essas estruturas como as maiores frutificações já documentadas entre os Ascomycota, enorme grupo de fungos que reúne dezenas de milhares de espécies.
Mas o tamanho não foi a única surpresa. Ao analisar sua anatomia e seu DNA, os pesquisadores concluíram que o fungo representa não apenas uma nova espécie e um novo gênero, mas também uma família inteira até então desconhecida pela ciência.
Encontrado em florestas da China
Os exemplares foram coletados na província de Yunnan, no sudoeste da China, uma região conhecida por sua grande biodiversidade.
O espécime utilizado como referência oficial da nova espécie foi coletado em 5 de agosto de 2024, na região de Kunming. Ele estava associado às raízes de uma árvore da espécie Quercus variabilis, conhecida como carvalho-cortiça-chinês.
Os fungos surgiam a partir do solo próximo às raízes de plantas debilitadas. Embora visualmente lembrem cogumelos gigantes, tecnicamente aquelas estruturas recebem o nome de estromas.
São partes do fungo relacionadas à reprodução e à produção de esporos. Portanto, quando se fala em um exemplar com 50 centímetros ou 2,2 quilos, trata-se da grande estrutura reprodutiva visível, e não necessariamente de todo o organismo subterrâneo.
Alguns exemplares parecem enormes dedos saindo do chão
A aparência do Dianjunus rex também chama atenção. Os estromas crescem verticalmente e podem assumir diferentes formatos: alguns são cilíndricos, outros ramificados ou achatados.
Nos exemplares descritos no estudo, as estruturas mediam entre 20 e 50 centímetros de altura, com partes que podiam chegar a aproximadamente 15 centímetros de diâmetro. Quando jovens, apresentam uma superfície clara, quase esbranquiçada. À medida que amadurecem, ficam progressivamente amarelados.
Algumas das fotografias feitas em campo mostram grupos dessas estruturas surgindo ao redor das raízes como grandes dedos claros saindo do solo.
DNA mostrou que ele não pertencia a nenhuma família conhecida
Para descobrir onde o fungo se encaixava na árvore evolutiva, os pesquisadores combinaram análises de sua aparência com diferentes tipos de estudo genético.
Eles compararam regiões específicas do DNA e também realizaram uma análise genômica mais ampla. O resultado mostrou que os exemplares formavam um grupo claramente separado dos fungos conhecidos mais próximos.
Por isso, os autores propuseram uma nova espécie, Dianjunus rex, um novo gênero, Dianjunus, e uma nova família, chamada Dianjunaceae.
A família foi colocada dentro da ordem Xylariales, que reúne fungos capazes de ocupar diferentes ambientes e que frequentemente estão associados à madeira e à decomposição de matéria vegetal.
O nome significa algo próximo de “rei dos fungos de Dian”
O nome científico também faz referência ao local e ao tamanho do organismo. Dianjunus combina Dian, nome de um antigo reino localizado na região que hoje corresponde a Yunnan, com a palavra chinesa jūn, usada para fungo ou cogumelo.
Já rex significa “rei” em latim e foi escolhido pelos pesquisadores por causa do tamanho e da aparência imponente das estruturas. Daí vem também o apelido utilizado na divulgação científica: “D-rex”, numa brincadeira evidente com o nome T. rex.
A linhagem pode ter surgido logo depois da extinção dos dinossauros
A parte evolutiva da descoberta talvez seja ainda mais curiosa. A partir das diferenças genéticas entre os grupos analisados, os pesquisadores estimaram quando a nova família se separou de seus parentes mais próximos.
O resultado apontou para aproximadamente 65 milhões de anos atrás, no início do Paleoceno. A estimativa possui uma faixa de incerteza mais ampla, entre cerca de 50 e 80 milhões de anos.
Isso coloca a origem estimada da linhagem muito próxima do período posterior à grande extinção do final do Cretáceo, ocorrida há aproximadamente 66 milhões de anos e conhecida por eliminar os dinossauros não aviários.
Os pesquisadores levantam a hipótese de que a reorganização dos ecossistemas após essa extinção possa ter criado novas oportunidades para determinados fungos.
Com grande quantidade de plantas mortas e florestas passando por profundas mudanças, novos nichos ecológicos podem ter surgido para organismos associados à decomposição de madeira.
Isso não significa que o fungo encontrado tenha 65 milhões de anos
Aqui existe uma distinção importante. Os cientistas não encontraram um fungo vivo com 65 milhões de anos, e também não demonstraram que a espécie atual permaneceu inalterada durante todo esse período.
Os aproximadamente 65 milhões de anos correspondem à estimativa de quando a linhagem evolutiva da nova família se separou de seus parentes, calculada a partir de dados genéticos.
A espécie Dianjunus rex descrita agora é moderna. Esse cuidado é particularmente importante porque dizer simplesmente que “cientistas encontraram um fungo de 65 milhões de anos” seria incorreto.
Por que ele ficou tão grande?
Os pesquisadores ainda não têm uma resposta definitiva. Uma das possibilidades discutidas no trabalho é que produzir estruturas muito grandes possa facilitar a dispersão dos esporos em florestas densas.
Ao elevar as regiões produtoras de esporos, o fungo talvez consiga melhorar sua dispersão em um ambiente cheio de vegetação e obstáculos.
Por enquanto, porém, isso continua sendo uma hipótese evolutiva apresentada pelos autores, e não uma função comprovada experimentalmente.
Descoberta mostra quanto ainda falta conhecer sobre os fungos
Para a equipe, a descoberta também evidencia uma lacuna no conhecimento sobre a diversidade de fungos na Ásia. Yunnan possui florestas tropicais e subtropicais extremamente biodiversas, mas muitas espécies de fungos dessas regiões ainda não foram formalmente descritas.
Encontrar um organismo de até meio metro de altura que representa uma família inteira desconhecida pela ciência mostra que espécies bastante chamativas ainda podem permanecer sem classificação formal.
O estudo foi publicado em 29 de setembro de 2026 na revista Frontiers in Fungal Biology. A divulgação científica ocorreu em 13 de outubro. O DOI é 10.3389/ffunb.2026.1940464.

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