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Satélites da NASA detectam aumento surpreendente de água armazenada em região do Maranhão

Fabio Rocca by Fabio Rocca
20/10/2026
in ESPAÇO
Ilustração mostra os satélites gêmeos GRACE-FO, utilizados pela NASA para acompanhar mudanças na distribuição de água na Terra por meio de pequenas variações no campo gravitacional. (Foto: NASA/JPL-Caltech)

Ilustração mostra os satélites gêmeos GRACE-FO, utilizados pela NASA para acompanhar mudanças na distribuição de água na Terra por meio de pequenas variações no campo gravitacional. (Foto: NASA/JPL-Caltech)

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Uma região do Maranhão está armazenando mais água do que no passado, e a descoberta foi feita de uma maneira pouco convencional: medindo pequenas alterações na gravidade da Terra a partir do espaço.

Pesquisadores que analisaram mais de duas décadas de observações de satélites da NASA identificaram um aumento médio estimado de 3,7 bilhões de toneladas de água armazenada por ano na área estudada.

O resultado chamou atenção porque a região também passou por mudanças importantes na paisagem, incluindo a substituição de vegetação nativa por áreas destinadas ao cultivo de soja.

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A relação entre essas transformações e o armazenamento de água ainda está sendo investigada. Entretanto, os dados revelam como a atividade humana pode modificar o ciclo hídrico de maneiras que nem sempre são percebidas por medições convencionais.

A descoberta faz parte de um estudo publicado na revista científica Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS), em 14 de setembro de 2026, por pesquisadores liderados por Mary Michael O’Neill, do Centro de Voos Espaciais Goddard, da NASA.

Em 20 de outubro, a agência espacial apresentou uma nova visualização dos resultados, destacando diferentes regiões do planeta onde atividades humanas estão associadas a mudanças expressivas na quantidade de água armazenada.

O que os satélites descobriram no Maranhão?

Os cientistas utilizaram observações realizadas entre abril de 2002 e novembro de 2025 para investigar como o armazenamento de água mudou em diferentes regiões continentais.

No Maranhão, uma das áreas identificadas apresentou uma tendência positiva de aproximadamente 3,7 bilhões de toneladas de água por ano, com uma margem de incerteza estimada em 0,8 bilhão de toneladas anuais.

É importante entender o significado desse número.

Ele representa uma tendência média de aumento do armazenamento total de água na região analisada ao longo do período estudado. Não significa que essa quantidade tenha sido acrescentada a reservatórios públicos ou que esteja disponível para consumo humano.

O conceito utilizado pelos pesquisadores é chamado de armazenamento terrestre de água. Ele considera diferentes componentes do ambiente, incluindo a umidade presente no solo, a água subterrânea e aquela armazenada em rios, lagos e outros reservatórios naturais ou artificiais.

Os satélites não determinaram diretamente quanto desse aumento ocorreu em cada um desses componentes.

O estudo também identificou uma associação espacial entre as mudanças no armazenamento de água, a expansão da agricultura dependente das chuvas e a redução da vegetação nativa.

Na área maranhense destacada pela NASA, lavouras de soja substituíram partes de florestas e vegetações arbustivas.

Essa coincidência chamou atenção dos pesquisadores, mas não demonstra, por si só, que a substituição da vegetação tenha causado o aumento observado.

Como a NASA consegue encontrar água medindo a gravidade?

O aspecto mais impressionante da pesquisa talvez seja a tecnologia utilizada.

As missões GRACE e GRACE-FO, desenvolvidas em cooperação com instituições alemãs, empregam pares de satélites que orbitam a Terra mantendo uma distância cuidadosamente monitorada entre si.

Quando o primeiro satélite passa sobre uma região com maior concentração de massa, sofre uma pequena alteração em seu movimento devido à atração gravitacional.

Isso modifica ligeiramente sua distância em relação ao segundo satélite.

Instrumentos extremamente precisos registram essas variações, permitindo aos cientistas calcular como a distribuição de massa está mudando na superfície e nas proximidades dela.

Como a água possui massa e se desloca constantemente pelo planeta, as alterações gravitacionais ajudam a identificar regiões que estão acumulando ou perdendo água ao longo do tempo.

O método permite estudar mudanças que ocorrem até mesmo abaixo da superfície, fora do alcance de câmeras convencionais.

Os pesquisadores conseguem, assim, acompanhar tendências de armazenamento em regiões onde existem poucas estações de medição ou informações locais limitadas.

Nova técnica revelou mudanças que antes passavam despercebidas

Embora satélites já fossem utilizados para estudar o armazenamento de água, havia uma limitação importante: a resolução espacial das medições gravitacionais convencionais era relativamente baixa.

Isso dificultava identificar mudanças menores, especialmente aquelas associadas a atividades humanas localizadas, como agricultura, construção de represas e retirada de água subterrânea.

No novo trabalho, os pesquisadores desenvolveram uma abordagem que aproveita diretamente as observações de distância entre os satélites e combina informações acumuladas durante mais de duas décadas.

O processamento permitiu produzir mapas de tendências de longo prazo com detalhes espaciais entre cinco e dez vezes maiores do que em análises anteriores, segundo a NASA.

A melhoria, porém, envolve uma compensação: ao reunir medições de muitos anos para refinar a localização das tendências, o método perde parte da capacidade de mostrar quando ocorreram mudanças específicas.

Com essa técnica, a equipe identificou 40 regiões do planeta onde as alterações no armazenamento de água apresentaram associações estatisticamente significativas com atividades humanas.

Os resultados também indicaram que determinadas perdas de água, especialmente em regiões dependentes de bombeamento subterrâneo, podem ser mais intensas do que estimativas anteriores sugeriam.

Mas por que algumas áreas agrícolas armazenam mais água?

Um dos resultados mais curiosos da pesquisa é que diferentes atividades agrícolas aparecem associadas a tendências opostas.

Em regiões da Índia, do México e dos Estados Unidos, por exemplo, a agricultura irrigada por poços subterrâneos está relacionada à redução expressiva das reservas de água.

Quando grandes quantidades são retiradas dos aquíferos durante períodos prolongados, a reposição natural pode não acompanhar o consumo.

Em outras áreas, a situação é diferente.

No Maranhão e em partes da África subsaariana, os pesquisadores identificaram aumento no armazenamento de água em regiões onde se expandiu a agricultura dependente principalmente das chuvas.

Uma das hipóteses é que mudanças no tipo de vegetação e na forma como a água circula pelo solo influenciem a quantidade que permanece armazenada.

Na divulgação do estudo, a NASA também menciona possíveis contribuições de práticas tradicionais de manejo que favorecem a infiltração da água em aquíferos rasos.

Entretanto, essas explicações ainda não foram demonstradas como a causa direta do aumento observado no Maranhão.

Para compreender o fenômeno, é necessário considerar outros fatores, como características do solo, precipitação, evaporação, uso da terra e circulação subterrânea.

Os resultados mostram uma relação espacial importante, mas não permitem atribuir toda a mudança a uma única atividade.

A descoberta não significa que desmatar aumenta a disponibilidade de água

Esse é um dos pontos mais importantes para interpretar corretamente a pesquisa.

O aumento do armazenamento de água identificado pelos satélites não equivale necessariamente a uma melhoria das condições ambientais.

Florestas exercem funções que vão muito além da quantidade de água momentaneamente armazenada em uma região. Elas participam da regulação da temperatura, da formação e reciclagem de umidade, da proteção dos solos e da manutenção de ecossistemas.

Da mesma forma, um aumento na massa total de água observada do espaço não informa diretamente sua qualidade, facilidade de utilização ou disponibilidade para comunidades e atividades econômicas.

Uma área pode apresentar ganhos de armazenamento em determinados compartimentos do ambiente enquanto enfrenta outros problemas hídricos e ecológicos.

Por isso, seria incorreto concluir que a expansão da soja ou a remoção da vegetação nativa produziram um benefício ambiental comprovado.

O que a pesquisa demonstra é que existem associações importantes entre atividades humanas e mudanças no armazenamento terrestre de água, algumas das quais só agora puderam ser observadas com maior detalhamento.

O que essa descoberta pode mudar?

Os resultados abrem possibilidades para melhorar o acompanhamento de recursos hídricos em diferentes partes do mundo.

Com medições espaciais mais detalhadas, pesquisadores poderão identificar alterações relacionadas à expansão agrícola, ao funcionamento de reservatórios e à retirada de água subterrânea em regiões anteriormente difíceis de monitorar.

Isso pode ser especialmente útil em locais onde as informações obtidas diretamente em campo são escassas.

O método também ajuda a revelar fenômenos que ultrapassam os limites administrativos de cidades, estados e países, permitindo compreender mudanças no ciclo da água em escalas maiores.

Ainda existem desafios, principalmente para determinar com mais precisão o papel de cada atividade humana e acompanhar como as tendências evoluem em intervalos menores.

Mesmo assim, o estudo mostra que a gravidade terrestre pode funcionar como uma ferramenta poderosa para investigar algo que normalmente parece invisível.

No caso do Maranhão, a descoberta oferece uma nova peça para compreender como a transformação da paisagem está associada ao comportamento da água.

E revela um fato surpreendente: mudanças que acontecem no solo e no subsolo podem deixar sinais detectáveis a centenas de quilômetros de altitude, sem que os satélites precisem fotografar uma única gota de água.

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