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Tremor em Marte revela falha ativa sob o maior cânion do Sistema Solar

Fabio Rocca by Fabio Rocca
20/10/2026
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Imagem de arquivo mostra Valles Marineris, o maior sistema de cânions do Sistema Solar. Um novo estudo identificou movimentos em uma falha geológica profunda sob a região. (Foto: NASA/JPL-Caltech/Arizona State University.)

Imagem de arquivo mostra Valles Marineris, o maior sistema de cânions do Sistema Solar. Um novo estudo identificou movimentos em uma falha geológica profunda sob a região. (Foto: NASA/JPL-Caltech/Arizona State University.)

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Marte pode parecer um planeta geologicamente adormecido, mas uma descoberta científica revelou que gigantescas estruturas formadas há bilhões de anos continuam capazes de produzir terremotos em suas profundezas.

Pesquisadores encontraram evidências de que uma falha geológica sob Valles Marineris, o maior sistema de cânions do Sistema Solar, sofreu um movimento que provocou um tremor registrado pela sonda InSight, da NASA.

A movimentação aconteceu entre aproximadamente 20 e 40 quilômetros abaixo da superfície. Nessa profundidade, enormes blocos de rocha deslizaram lateralmente uns em relação aos outros, liberando energia na forma de ondas sísmicas.

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A descoberta foi apresentada em um estudo publicado em 15 de outubro de 2026 na revista científica Nature Communications, conduzido por pesquisadores do Imperial College London, da Universidade Columbia e de outras instituições.

O resultado chama atenção porque Marte não possui o sistema de placas tectônicas móveis responsável por grande parte dos terremotos na Terra. Mesmo assim, antigas fraturas em sua crosta podem continuar acumulando e liberando tensões.

Um terremoto escondido sob um cânion gigantesco

Valles Marineris é uma das formações geológicas mais impressionantes já identificadas fora da Terra. O sistema de cânions se estende por aproximadamente 3.900 quilômetros, alcança até 600 quilômetros de largura e ultrapassa 9 quilômetros de profundidade em determinados pontos.

Para ter uma ideia da escala, sua extensão é comparável à distância entre regiões inteiras de um continente.

A formação começou há cerca de 3,5 bilhões de anos, quando processos tectônicos associados à enorme região vulcânica de Tharsis contribuíram para fraturar e deformar a crosta marciana. Com o passar do tempo, desabamentos e outros processos ampliaram as grandes depressões.

Durante muito tempo, os cientistas suspeitaram que algumas dessas antigas falhas ainda poderiam apresentar atividade. Imagens obtidas por sondas orbitais já mostravam deslizamentos de terra e outras marcas de deformação relativamente recente.

O que faltava era uma evidência sísmica mais direta que permitisse compreender como uma dessas falhas estava se movimentando. Essa oportunidade apareceu graças a um tremor registrado em 25 de agosto de 2021.

Sonda registrou o tremor do outro lado de Marte

O evento, identificado como S0976a, foi detectado pela InSight, missão enviada pela NASA para investigar a estrutura interna do planeta.

A característica mais incomum do tremor era sua localização: ele havia ocorrido do lado oposto de Marte em relação ao equipamento que registrou as vibrações.

Análises anteriores já apontavam Valles Marineris como a região de origem do sinal. Entretanto, ainda existia uma dúvida importante sobre o que realmente havia causado a movimentação.

Isso acontece porque nem todos os tremores marcianos são produzidos pelo deslocamento de falhas geológicas.

A queda de meteoritos, por exemplo, também pode gerar ondas sísmicas. Grandes deslizamentos de terra são outra possibilidade, especialmente em uma região com paredões tão elevados quanto os de Valles Marineris.

Para investigar o mistério, os pesquisadores voltaram aos registros da InSight e analisaram o comportamento de diferentes ondas sísmicas enquanto viajavam pelo interior do planeta.

Eles examinaram os tempos de chegada, as amplitudes e as direções dos movimentos registrados pelo instrumento. Em seguida, compararam esses dados com modelos que simulavam diferentes possíveis causas do tremor.

Os resultados apontaram para um fenômeno conhecido como falhamento transcorrente, no qual dois blocos de rocha deslizam horizontalmente um em relação ao outro.

Em outras palavras, o tremor não teria sido provocado por uma montanha desabando ou por um meteorito atingindo o solo, mas pelo movimento de rochas ao longo de uma fratura profunda.

Cientistas investigaram até imagens da superfície

Para reforçar a conclusão, a equipe também analisou imagens da região obtidas por sondas que orbitam Marte. O objetivo era procurar sinais de um grande deslizamento ou de uma cratera recente que pudesse explicar o terremoto.

Nenhuma dessas alterações foi identificada nas áreas cobertas pelas imagens disponíveis após o evento.

Os cientistas calcularam ainda que um deslizamento capaz de produzir um sinal sísmico daquela intensidade precisaria envolver uma quantidade enorme de material, deixando marcas que provavelmente seriam visíveis do espaço.

Quando combinaram essas observações com os registros sísmicos, a interpretação mais consistente foi o movimento de uma falha geológica profunda.

O estudo estimou uma magnitude de momento entre 3,4 e 3,6 para o tremor, inferior ao valor 4,0 registrado no catálogo sísmico utilizado pela missão. Essa diferença depende dos métodos e modelos empregados nas estimativas.

O detalhe importante é que a pesquisa não apenas localizou um tremor em uma região conhecida por suas grandes fraturas. Ela ajudou a identificar o mecanismo físico responsável por produzi-lo.

Por que Marte ainda tem terremotos se não possui placas tectônicas?

Na Terra, a movimentação das placas tectônicas transforma continuamente a superfície, formando montanhas, abrindo oceanos e provocando terremotos.

Marte funciona de maneira diferente. Sua camada externa se comporta como uma estrutura relativamente rígida, sem o movimento global de placas observado em nosso planeta.

Isso, porém, não significa que todas as forças capazes de deformar sua crosta tenham desaparecido. Uma das possíveis fontes de tensão é o resfriamento gradual do interior marciano. Ao perder calor, o planeta passa por mudanças que podem produzir esforços em suas rochas.

Outro fator é a influência de Tharsis, uma imensa região vulcânica cuja estrutura exerce efeitos sobre a crosta ao redor. Os pesquisadores também consideram que a própria formação e erosão dos cânions podem ter alterado a distribuição de tensões nas camadas profundas.

A combinação desses processos ajuda a explicar como fraturas antigas podem voltar a se movimentar, mesmo depois de bilhões de anos. Em vez de criar necessariamente novas falhas, as forças atuais podem aproveitar regiões da crosta que já foram enfraquecidas no passado.

Descoberta também revela o que ainda não sabemos sobre Marte

Embora a pesquisa apresente evidências de atividade tectônica em Valles Marineris, ela não significa que todo o gigantesco sistema de cânions esteja se movimentando continuamente.

O estudo analisou um evento específico e identificou um mecanismo compatível com o deslocamento de uma falha profunda.

Também não foram registrados novos tremores claramente associados àquela região nas semanas seguintes. Entretanto, isso não comprova a ausência de réplicas: a grande distância entre o cânion e a InSight dificultava a detecção de eventos menores.

A missão da NASA encerrou suas operações em dezembro de 2022, mas os registros científicos continuam sendo estudados.

Essa é uma das consequências mais interessantes da descoberta. Mesmo depois do fim de uma missão espacial, novas técnicas de análise podem revelar informações que estavam escondidas nos dados coletados anos antes.

Além de ajudar a compreender a história de Marte, os resultados oferecem pistas sobre o comportamento de outros planetas rochosos que não possuem placas tectônicas móveis.

A conclusão é que uma superfície aparentemente imóvel não significa necessariamente um interior sem atividade. Em Marte, estruturas criadas em um passado extremamente distante ainda podem influenciar a maneira como o planeta libera energia hoje.

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