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Telescópio criado para estudar galáxias encontra cometa desconhecido a 1,3 bilhão de km da Terra

Fabio Rocca by Fabio Rocca
21/10/2026
in ESPAÇO
Registro científico do cometa C/2026 S1 (Euclid), obtido em 20 de setembro de 2026. ESA/Euclid/Euclid Consortium/NASA, M. Pöntinen et al. 2026.

Registro científico do cometa C/2026 S1 (Euclid), obtido em 20 de setembro de 2026. ESA/Euclid/Euclid Consortium/NASA, M. Pöntinen et al. 2026.

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Um telescópio espacial construído para investigar os maiores mistérios do universo acabou encontrando algo muito mais próximo do que as galáxias que costuma observar: um cometa desconhecido, viajando por uma região distante do Sistema Solar.

O objeto estava a aproximadamente 1,3 bilhão de quilômetros da Terra quando foi identificado nas imagens do telescópio Euclid, da Agência Espacial Europeia (ESA).

Batizado de C/2026 S1 (Euclid), ele foi registrado durante observações realizadas entre 16 e 24 de setembro de 2026. A descoberta foi confirmada em 8 de outubro pelo Minor Planet Center, órgão ligado à União Astronômica Internacional, e anunciada pela ESA em 19 de outubro.

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O fato chamou atenção porque o Euclid não foi construído para procurar cometas. Sua principal missão é mapear bilhões de galáxias e estudar fenômenos associados à matéria escura e à energia escura.

Mesmo assim, um programa desenvolvido para analisar objetos em movimento nas fotografias conseguiu encontrar um pequeno rastro luminoso que não correspondia a nenhum corpo celeste conhecido.

O que inicialmente poderia parecer apenas uma interferência nas imagens revelou-se um novo integrante do Sistema Solar.

Comet C 2026 S1 Euclid streaks across the sky ESA529843
Veja o cometa C/2026 S1 se deslocando diante das estrelas em uma sequência de imagens reais capturadas pelo telescópio Euclid em setembro de 2026. (Crédito: ESA/Euclid/Euclid Consortium/NASA, M. Pöntinen et al. 2026 — CC BY-SA 3.0 IGO.)

Um pequeno rastro apareceu entre milhares de galáxias

A descoberta começou com o trabalho de Mikko Pöntinen, pesquisador da Universidade de Helsinque, na Finlândia, e integrante da equipe científica responsável pelo estudo de pequenos corpos do Sistema Solar nas imagens do Euclid.

Ele desenvolveu um programa capaz de identificar rastros deixados por objetos que se movimentam diante do campo de visão do telescópio. A ideia parte de uma diferença simples entre corpos próximos e distantes.

Quando o Euclid observa uma região do céu, mantém seus instrumentos apontados de maneira estável para produzir imagens detalhadas de estrelas e galáxias.

Esses objetos distantes aparecem praticamente fixos durante uma exposição. Já um asteroide ou cometa relativamente próximo pode mudar de posição enquanto a câmera registra a luz, deixando uma pequena faixa alongada na fotografia.

Foi exatamente esse tipo de sinal que chamou atenção do programa. O software encontrou um rastro luminoso em imagens do chamado Campo Profundo Norte, uma das regiões utilizadas pelo Euclid para estudar o universo distante.

Ao analisar sua trajetória, Pöntinen conseguiu localizar o objeto em cinco conjuntos de imagens diferentes. No total, o cometa apareceu em 16 exposições distribuídas por vários dias.

Isso permitiu acompanhar seu deslocamento e reunir informações suficientes para investigar sua natureza.

Como os cientistas descobriram que não era um asteroide?

Detectar um objeto se movimentando não significa automaticamente ter encontrado um cometa. Asteroides também deixam rastros quando passam pelo campo de visão de um telescópio. Alguns satélites artificiais podem produzir efeitos semelhantes em outras condições de observação.

Por isso, os pesquisadores precisavam identificar características adicionais. A pista decisiva surgiu quando perceberam que o objeto estava envolvido por uma região difusa de material.

Essa estrutura é conhecida como coma, uma nuvem de gás e poeira que se forma ao redor do núcleo de um cometa quando substâncias congeladas começam a se transformar em gás e a liberar partículas.

Diferentemente de uma estrela, que costuma aparecer como um ponto luminoso bem definido, um cometa ativo pode apresentar uma aparência nebulosa.

Nas imagens do Euclid, essa combinação de movimento e material difuso indicava que o objeto provavelmente era um cometa.

A equipe também verificou catálogos astronômicos para descobrir se aquele corpo já havia sido observado anteriormente. Nenhuma correspondência foi encontrada.

Os pesquisadores então enviaram os dados ao Minor Planet Center, responsável por reunir registros de pequenos corpos do Sistema Solar.

Observações posteriores realizadas por astrônomos em solo ajudaram a confirmar a descoberta. Em 8 de outubro, o objeto recebeu oficialmente a identificação C/2026 S1 (Euclid).

As imagens mostram um cometa viajando pelo espaço

A Agência Espacial Europeia divulgou diferentes registros do novo cometa. Uma das imagens mostra o objeto atravessando uma região repleta de estrelas e galáxias, com um pequeno rastro luminoso indicando seu deslocamento durante a exposição.

Cada uma dessas observações mais longas durou aproximadamente 560 segundos, pouco mais de nove minutos. Durante esse intervalo, o cometa mudou de posição em relação ao fundo de estrelas, formando uma faixa alongada.

Os pesquisadores também combinaram oito exposições mais curtas, de aproximadamente 89,5 segundos cada, para produzir uma imagem mais nítida do objeto. Nesse segundo registro, a luz do cometa aparece concentrada em uma região central cercada por uma nuvem difusa.

O resultado não é uma fotografia colorida semelhante às imagens artísticas frequentemente utilizadas para representar cometas. Trata-se de uma observação científica em preto e branco obtida pelo instrumento VIS, responsável pelas imagens em luz visível do Euclid.

As diferenças entre os dois tipos de registro ajudam a explicar como os cientistas conseguiram reconhecer o movimento do objeto e identificar sua atividade.

Cometa pode levar milhares de anos para completar uma volta ao redor do Sol

O C/2026 S1 apresenta outra característica interessante: sua órbita é extremamente longa e inclinada em relação ao plano no qual a maior parte dos planetas se movimenta. De acordo com a ESA, o objeto percorre uma trajetória que o leva muito acima do plano principal do Sistema Solar.

Sua distância da Terra no momento do anúncio era de aproximadamente 1,3 bilhão de quilômetros. Para comparação, essa medida corresponde a mais de oito vezes a distância média entre a Terra e o Sol.

As observações iniciais indicam que o cometa poderá levar milhares de anos para completar uma única órbita solar. Ainda não existe, porém, uma determinação definitiva de seu período orbital. Os cálculos deverão ser refinados à medida que novas observações forem realizadas.

Cometas de órbitas muito longas são especialmente interessantes porque podem preservar materiais antigos, remanescentes da formação do Sistema Solar há aproximadamente 4,6 bilhões de anos.

O estudo desses objetos ajuda os cientistas a investigar substâncias e condições presentes nas primeiras etapas da formação dos planetas.

Isso não significa que o C/2026 S1 tenha sido observado pela primeira vez em toda a sua existência. Significa apenas que não havia registros conhecidos suficientes para identificá-lo antes das observações do Euclid.

Por que é tão difícil encontrar um cometa com o Euclid?

A descoberta se torna ainda mais curiosa quando se considera o funcionamento do telescópio. O Euclid foi projetado para realizar um amplo levantamento de galáxias distantes, analisando suas formas, posições e distribuição pelo universo.

Essas informações ajudam os astrônomos a investigar como a gravidade influencia a estrutura do cosmos e como a expansão do universo mudou ao longo do tempo.

Para obter medições precisas, o telescópio evita determinadas regiões do céu onde a poeira do Sistema Solar produz brilho capaz de prejudicar observações sensíveis.

Além disso, sua estratégia de trabalho normalmente consiste em observar uma região e depois avançar para outra.

Isso é muito diferente do comportamento de telescópios dedicados à busca de asteroides e cometas, que podem retornar repetidamente aos mesmos campos para identificar movimentações.

No caso do C/2026 S1, a combinação entre a trajetória do cometa e o planejamento das observações permitiu que o objeto aparecesse em diferentes imagens.

A ESA considera essa coincidência especialmente favorável, já que não espera encontrar uma grande quantidade de cometas desconhecidos durante a missão.

O Euclid já havia fotografado cometas identificados anteriormente, mas este foi o primeiro objeto dessa categoria descoberto pela própria missão.

Descoberta poderá ajudar uma futura missão espacial

Embora o Euclid tenha encontrado o cometa durante um trabalho voltado a galáxias, o resultado pode ter consequências para pesquisas sobre o Sistema Solar.

A ESA desenvolve uma missão chamada Comet Interceptor, planejada para investigar um cometa que ainda não tenha passado muitas vezes perto do Sol.

A proposta é que a espaçonave permaneça inicialmente em uma posição de espera e siga para um alvo adequado depois que ele for identificado.

Encontrar esses objetos com antecedência é fundamental, pois a definição de uma trajetória de encontro exige tempo para cálculos e planejamento.

Nesse contexto, sistemas capazes de descobrir cometas distantes podem contribuir para o sucesso de missões futuras. O C/2026 S1, entretanto, não é considerado um alvo adequado para o Comet Interceptor, segundo a Agência Espacial Europeia.

Sua importância está em demonstrar que o processo de identificação, comunicação e confirmação de novos cometas pode funcionar mesmo utilizando dados de um telescópio dedicado a outro tipo de investigação.

A experiência também ajuda a testar a colaboração entre equipes responsáveis por diferentes missões científicas.

Um universo de descobertas escondido nas imagens

O caso do C/2026 S1 mostra que uma grande missão espacial pode produzir resultados muito além daqueles previstos em seus objetivos principais.

Enquanto o Euclid procura compreender a estrutura do universo em escalas gigantescas, seus instrumentos também registram pequenos objetos que atravessam o campo de visão.

Esses sinais precisam ser identificados para que não prejudiquem os cálculos relacionados às galáxias distantes. Mas, com técnicas adequadas, aquilo que inicialmente aparece como uma interferência pode se transformar em uma descoberta astronômica.

O novo cometa é um exemplo dessa possibilidade. Ele não foi encontrado porque o Euclid interrompeu suas observações para procurá-lo, mas porque pesquisadores desenvolveram métodos capazes de reconhecer informações adicionais nas imagens que a missão já estava produzindo.

Assim, um telescópio voltado a investigar matéria escura, energia escura e galáxias bilhões de anos-luz distantes acabou revelando um pequeno corpo gelado que percorre uma trajetória de milhares de anos ao redor do nosso próprio Sol.

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